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Pitanga
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Assim
como a região do Rio de Janeiro teve influência das tradições africanas, a
região da Amazônia teve primordialmente dos indígenas que podem ser observadas
a partir de registros das histórias dos habitantes da região. As particularidades
ambientais impactaram de maneira direta os saberes, costumes e práticas dos
habitantes desse território.
É
a partir da oralidade que podemos perceber as definições próprias que essas
pessoas têm de saúde e doença e suas próprias receitas de medicamentos que são
feitas à base de matrizes naturais de flora, fauna e minérios. Além disso,
aspectos religiosos também estão presentes nas tradições dessa população. Esses
indivíduos possuem um grande conhecimento destas práticas de terapia popular e
quase todas residências tem plantações de plantas medicinais e que na falta de
alguma erva é de costume pegar emprestado de algum vizinho, quando não, a
planta cresce de forma natural nas florestas.
Na
Amazônia a Igreja Católica contribuiu para a disseminação do conhecimento
popular terapêutico, mesmo que antes por parte desta houvesse algum tipo de
desconfiança, a partir do ano de 1990, houve uma criação de farmácias de
manipulação de plantas medicinais que eram ligadas a igreja e estavam situadas
nas regiões municipais, tais como: Barcelos e Santa Isabel e isso fez com que
esse conhecimento popular começasse a ganhar um caráter científico.
Com
esse breve contexto apresentado no capítulo sobre as tradições populares da
Amazônia, podemos perceber que as influencias populares dos século XVIII XIX se
estendeu por todo o território brasileiro e não somente na Corte. Mas, os
aspectos que estão presentes nos discursos dos amazonenses e das população dos
períodos coloniais e imperiais se fazem presentes também na sociedade popular
do Município de Petrópolis (RJ). Assim como na Amazônia esses aspectos são
percebidos a partir da oralidade, passados de geração em geração e teve
influência religiosa e da Igreja Católica.
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Arruda
Foto:Internet |
Essa
influência católica é percebida a partir da entrevista feita com a Irmã
Gabriela, uma religiosa da congregação das irmãs de Santa Catarina de
Alexandria que trabalhou na oficina de ervas do Colégio Santa Catarina na
cidade de Petrópolis, onde funciona também uma pequena farmácia com os
medicamentos que foram feitos na própria oficina e com as plantas que foram
colhidas na horta do colégio.
No início de sua carreira foi direcionada para
a área de enfermagem, onde se formou em enfermagem na cidade de São Paulo e atuou
na área hospitalar durante aproximadamente quarenta anos e concomitantemente
também como missionária religiosa nas pastorais da igreja. De acordo com a Irmã
Gabriela nas pastorais há uma grande sensibilização com as necessidades
humanas, tanto a nível religioso, quanto a nível de saúde e uma busca de
melhorar a qualidade de vida e saúde das pessoas.
Teve
muitas oportunidades, pois se formou também em administração hospitalar e nomeada
para administrar dois hospitais da congregação, pois onde morava tinha técnico
e auxiliar de enfermagem e por isso que fez pós-graduação em pedagogia para
poder lecionar no curso de enfermagem.
Diz
que trabalhou como parteira na Bahia, mas antes de se mudar morava em
Teresópolis onde era responsável por toda a enfermagem que ela chama de “casa”,
principalmente do centro cirúrgico, berçário, maternidade. Na Bahia, foi como
substituta de uma irmã que estava regressando aos estudos. Durante seu trabalho
no estado Baiano, enfatiza que teve muitos problemas nos posto de saúde onde
atuou, pois as condições eram precárias. Por conta dessa precariedade as
pessoas não confiavam nos hospitais e quando tinham de ir, por exemplo em uma
ambulância, o paciente, mesmo sendo mulher grávida se escondiam, pois achavam quando
a pessoa estava indo para o hospital era porque ia morrer.
Descreve
como se dava os trabalhos das parteiras na Baia, que na região eram chamadas de
“pega menino” e fica sendo “mãe de pegação do neném que ajudou a nascer. Quando
a criança morria, por exemplo do mal de sétimo dia (tétano umbilical), era
batizada como “mané”, porque não nasceu para viver. Por canta de muitas crianças morrerem, porque
as vacinas e a higienização não eram levadas à sério Irmã Gabriela resolveu dar
um curso para ajudar as parteiras a entender um pouco dos procedimentos de
cuidados que se deve ter com as crianças recém-nascidas, mas houve resistência
das “pega menino”, por conta das tradições que já havia entre elas.
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Boldo
foto:Internet |
Já
sobre as plantas, menciona sobre sua formação em fitoterapia na cidade de Lins
– SP e sobre a experiência que vivenciou, no Instituto Paulista de Promoção
Humana que era coordenada pelo padre Augusto e foi nesse instituto que teve uma
experiência de dez dias de tratamento, pois é o período mínimo para uma terapia
natural dar resultado. E depois do curso, acabou se integrando na equipe, onde
teve oportunidade de registrar a horta que estavam fazendo, de conhecer as
plantas. A irmã Gabriela enfatiza que as plantas mudam muito de uma região para
outra, por exemplo, plantas que ela conheceu em São Paulo não tem a mesma
espécie em Petrópolis. Conta que utilizava as plantas no curso para fazer
cataplasma, chás, banhos, tais como: banho de vapor, de assento, conforme a
necessidade do caso.
Na
cidade de Petrópolis funcionava uma instituição chamada ASBANTO e que estavam
oferecendo um curso de fitoterapia no primeiro semestre, onde ela também
cursou. Foi nesse momento que conheceu Ari (conhecido como Ari Raizeiro) que foi
o motivador do movimento fitoterápico que realizavam. Depois do curso, começou
a trabalhar na oficina de ervas do colégio Santa Catarina. Além de fitoterapia,
irmã Gabriela estou diversas terapias alternativas, como por exemplo,
radiestesia, estudo dos chacra entre outras e todas relacionas com as plantas.
Essa
entrevista da irmã foram selecionados trechos relevantes que falam um pouco da
trajetória de formação e trabalho que teve, pois são aspectos que mostram um
pouco a influência da Igreja católica na disseminação do conhecimento popular e
aos mesmo tempo como pessoas relacionadas à área da saúde e tratamento
tradicionais estão ligadas à esse conhecimento dando a ele um caráter mais científico
e isso também ocorreu no século XIX com a criação dos manuais de medicina do
Dr. Chernoviz.
Não
somente a influência Católica é percebida nos discursos dos petropolitanos, mas
também aquelas que estão relacionadas diretamente com a cultura africana, como
religião e as crenças no sobrenatural. Essas características podemos perceber
na pesquisas feitas com o senhor Jamil e a senhora Eliane
Senhor Jamil que nasceu em Minas Gerais no ano
de 1964, quando criança ia muito para as matas da região de sua cidade, chamada
mata da onça, local onde morreu 150 escravos na mina da cata branca. Quando se
mudou para Petrópolis em 1979, começou a frequentar barracão (Candomblé) dando início
ao seu aprendizado sobre as plantas, através dos antigos que eram descentes de
escravos.
Porém,
especificamente aprendeu sobre as plantas medicinais e as ervas usadas nos
barracões para banhos, para cura com o tio Gramé (um senhor da região que era
conhecido por esse nome). Além de ter aprendido sobre as plantas, diz que
também aprendeu muito sobre a História da cidade de Petrópolis, como por
exemplo, sobre a Fazenda do Córrego Secco – sede que deu origem a cidade- e a
fazenda Samambaia que pertencia ao Visconde de Mauá. De acordo com o senhor
Jamil a Fazenda Samambaia era a única que tinha plantações de café.
Ao
falar da relação das plantas e do barracão de Candommblé, Jamil diz que os
santos que “chegavam”, ou seja incorporavam pediam determinadas plantas e então
as pessoas que frequentavam a casa saíam para buscar. Explica sobre um emplasto
ensinado pelas entidades feito de hortelã do moto, picão, azeite doce e folha
de fumo para colocar na ferida, pois puxa toda a inflamação, por ser planta
fria e não deixa espalhar. Além disso, colhia folhas para gripe, diabetes,
entre outras.
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Hortelã
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Fala
a respeito da pitanga que “corta a febre por dentro”, mas tem de ser tomada de
maneira correta, ou seja fazer o chá na quantidade certa e além disso, tem de
ser colhida em uma determinada hora, mais especificamente entre às 07h e 08h,
ou entre às 18h e às 19h, pois segundo o entrevistado é o horário que a planta
faz efeito. Explica sobre as folhas da laranja da terra que é utilizada em
forma de chá que para limpezas de catarro e a arnica utilizada para dores no
corpo colocando no álcool fazendo compressa e em forma de chá juntamente com a
pitanga e a laranja da terra em quantidades certas que se torna um
anti-inflamatório e afirma ser mais eficaz que um remédio alopata. Já a pitanga
com a folha da goiaba branca serve para curar diarreia.
Ao
dizer sobre seu pai que mesmo sendo raizeiro não passou muito conhecimento e
afirma que muitas coisas sobre as plantas aprendeu com os índios quando esteve
na região do Amazonas, no ano de 1982. Diz que passou a infância pertos das
matas e com isso aprendeu a entrar e sair e que nunca uma cobra o picou, pois
existe maneiras de se entrar na mata, pois ao contrário a própria natureza
proporciona situações para assustar. De acordo com o senhor Jamil existe um
espírito na mata que falava com ele ensinando-o sobre algumas ervas e cipós,
como por exemplo, cipó caboclo.
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Folhas da Laranja da terra
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Afirma
que há necessidade pedir licença nos barracões às entidades para entrar na mata
e que no meio do mato pode-se achar muitas coisas, mas há uma necessidade te
ser um conhecimento para não que haja problemas. Segundo o entrevistado o
conhecimento de sua namorada sobre as plantas provém de um Orixá que a passou
para que assim pudesse fazer perfumes de pétalas de rosas sem álcool. Senhor
Jamil enfatiza que os remédios à base de plantas que são mais eficazes que os
remédios alopatas por não conterem químicos e afirma que os conhecimentos são
assados somente aqueles que merecem, principalmente sobre as plantas
Durante
a conversa fala muito a respeito da História de Petrópolis e sua relação com os
negros e diz que foram os escravos que trouxeram o conhecimento das plantas
para a cidade de Petrópolis e que as plantas são um símbolo dos negros dentro
dos barracões. Explica sobre os banhos de descarrego e sobre a arruda que é
usada para lavar as vistas e dar banho em crianças recém-nascidas contra
mau-olhado.
Doença
para o senhor Jamil é algo o maligno e afirma que não existe doença incurável,
mas existe algo maligno que está presente na doença que pode ser curado e qye
esse algo maligno está relacionado à outras vidas das pessoas e que são as
raízes destas, ou seja Karma e além disso a doença vem a ser algo hereditário que
é passado por gerações, como da doença vermelha (câncer). Diz que as plantas
podem tirar esse mal, mas é necessário fazer uma oração antes de utilizar o
remédio, pois é necessário que haja uma permissão dos espíritos para que a
planta seja utilizada. E para o senhor Jamil a saúde é um privilégio e um dom
dado para aquele que pode usufruir.
A
senhora Eliane nasceu na cidade de Petrópolis ia com frequência à igreja e em
rezadores quando criança. É descendente de índios, pois seu pai e sua avó eram
indígenas. Diz que tomava medicamentos receitados pelos remédios que os médicos
passavam e dava alergia e por conta disso parou de tomar remédios alopatas e
vacinas e passou a se tratar com medicamentos à base de plantas.
Ao
falar sobre as plantas cita as plantações de boldo, carurumijão(utilizado para
feridas), mestruz (utilizados para vermes) que sua mãe tinha em casa e sobre a
pitanga e a arnica que utilizava contra
febre e resfriado. De acordo com a entrevista é necessário pedir licença para
colher as plantas senão a planta não faz o efeito e enfatiza que os remédios de
plantas são mais eficazes que os alopatas.
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Mestruz
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Menciona em sua entrevista a respeito do uma
oração feita no centro espírita que frequentava que ajudou a curar um problema
que estava nos olhos e afirma que se não fosse por essa oração hoje não estaria
enxergando. E assim como o senhor Jamil, a senhora Eliane enfatiza que a doença
está relacionada a algo que a pessoa fez no passado, em outras vidas (carma) e
vem como forma de proteção para que que os erros não sejam repetidos nessa vida
e diz que não pode ser interferido esse aprendizado que a pessoa está passando,
pois é uma necessidade que ela precisa passar. E a respeito da cura diz que
pode ser adquirida através de orações e
De
acordo com a entrevistada, ela diz que toma os chás e banhos a base de plantas
de maneira intuitiva ao conversar com a planta e afirma que vai em rezadores
até dos dias de hoje e que nunca tomou remédio para evitar a gravidez, pois é
necessário que a natureza siga seu fluxo.
Ao
falar sobre os médicos diz que estes não conhecem o corpo do ser humano, por
conta disso não conseguem curar ninguém e que quando as pessoas que ficam nos hospitais
sem ter necessidade acabam ficando mais doentes e fala que vai somente aos
médicos para saber o diagnóstico, mas não toma os medicamentos receitados pelos
eles e que e as plantas curarem por ser de sua natureza, pois estão na Terra
para curar as doenças, mas o ser humano que não sabe lidar com elas e que efeito das plantas está relacionado à maneira
da colheita e a forma de secagem. Afirma que é necessário ter dom de mexer com
plantas, nem todos podem manuseá-las, pois tem pessoas que tem “mal olhado”,
são pessoas ruins que só de olhar a planta ela já morre.
A
senhora Eliane fala sobre a necessidade das pessoas terem interesse em conhecer
as plantas, pois senão não fazem efeito e que é necessário também ter fé, pois
com a fé até um copo de água pode curar.
Podemos
perceber a partir desses três trechos dessas entrevistas feitas através dos
trabalhos realizados pela FIOCRUZ no Município de Petrópolis que aspectos
presentes dentro da sociedade dos séculos XVIII e XIX ainda se fazem presentes
nos dias de hoje. Portanto, a história está sempre em movimento, pois que o que
acontece em um passado que mesmo sendo considerado distante, ainda sim
influência os dias de hoje.