segunda-feira, 30 de abril de 2018

OS MANUAIS DE MEDICINA POPULAR DO DR. CHERNOVIZ NA SOCIEDADE IMPERIAL



Por conta desses ideias populares sobre a saúde e a doença e a resistência por parte das pessoas às vacinas, a medicina científica encontrou alguns problemas de aceitação por parte dos mais humildes, que muitas vezes preferiram os tratamentos através das práticas populares, e uma maneira de conseguir a aceitação das pessoas foi a de utilizar desse conhecimento popular elaborando manuais de uso de plantas medicinais, tanto focados para os médicos e boticários quanto para os próprios populares.

A princípio acreditava-se no Brasil que as terapias populares de cura do período colonial não iriam influenciar à medicina científica durante o século XIX, já que pouco se sabiam sobre os conhecimento popular. Entretanto, a medicina já estava sendo influenciada pelas culturas indígenas e africanas desde a colônia, tendo uma participação ativa dos profissionais com formação na academia, mas as práticas do século XVIII eram primordialmente realizadas pelos terapeutas populares, como por exemplo, feiticeiros, curandeiros, raizeiros, entre outros.

Com a implantação das faculdades de medicina no Império houve uma melhora significativa nos ensinos de médicos, principalmente em cirurgias, mas acabou ocorrendo um afastamento entre a medicina popular e científica. Logo, uma medida adotada em 1832 pelo governo imperial, foi transformar as precárias escolas de cirurgia instaladas no Rio de Janeiro e em Salvador em faculdades de medicina popular que compreenderam uma profunda mudança, pois na sociedade imperial ainda retinham muitos aspectos do período Colonial e por conta disso, existiu uma necessidade de se fazer mudança no âmbito acadêmico da medicina. Entretanto, para os idealizadores, as faculdade de medicina deveriam assumir a árdua tarefa, de sumir com os padrões advindos do período colonial, ou seja, promover uma aculturação da medicina local, para que as novas tendências da medicina europeia se tornassem o principal meio de tratamento.  

Como já citado, as práticas populares de cura eram utilizadas desde a colônia e as plantas foi uma das práticas terapêuticas mais recorrentes entre as tradições médicas, as diversificadas espécies da flora tropical brasileira estimulava a busca de novos medicamentos, entre eles os que pudessem servir de antídoto para veneno de plantas e peçonha de animais, mas como muitas das vezes esse conhecimento era oriundo do universo popular, muitos médicos exigiam uma comprovação científica para tais procedimentos, logo os manuais de medicina elaborados pelo  Dr. Chernoviz foi primordial para que houvesse mais credibilidade por parte dos médicos e boticários sobre o uso das plantas medicinas, pois neles continham vários procedimentos e propriedades da flora como medicamento. Além disso, Dr. Chernoviz criou um dicionário de medicamentos que continha uma linguagem mais acessível aos leigos, oferecendo-lhes a chance de adquirir a “instrução mínima” necessária para enfrentar com algum sucesso as emergências médicas do cotidiano. O dicionário também trazia conhecimentos básicos sobre higiene.


Dr. Chernoviz, veio para Brasil no século XIX, se formou em 1837 na França, em Montpellier, onde conheceu alguns colegas brasileiros. No ano de 1840, acabou se mudando para o Rio de Janeiro, local que permaneceu até 1855. Com o tempo em que viveu na Corte, pode conhecer os costumes, tais como, o de leitura. Tomou conhecimento também das obras médicas traduzidas e de como essa profissão estava organizada e institucionalizada na cidade, com isso foi possível que construísse uma trajetória de médico e de empresário editorial na cidade do Rio de Janeiro. Filiou-se como membro titular à Academia Imperial de Medicina em dezembro de 1840. Essa instituição representava a elite médica Corte e tinha por atividades a pesquisa e a consultoria sobre higiene, que os médicos brasileiros já tinham algum conhecimento.

No período em que esteve no Brasil, o Dr. Chernoviz escreveu uma série de Formulários ou Guias Médicos e Dicionários Médicos que tinham como objetivo auxiliar aos médicos, boticários e curandeiros da época para a fabricação de remédios à base de plantas e também para ajudar as pessoas da classe pobre e rurais que não tinham condições de se consultar com os poucos médicos que imigraram para o Brasil.

O Formulário ou Guia Médico era dividido em várias seções contendo a descrição dos medicamentos, suas propriedades, suas doses e contra as moléstias deveria ser usado. Além disso, descriminava as plantas medicinais indígenas, e as águas minerais do Brasil, a arte de formular, a escolha das melhores fórmulas, além de muitas receitas úteis nas artes e na economia doméstica. Todos os medicamentos de que o FGM tratava, dividiam-se em dezesseis classes, cada uma com uma propriedade médica particular e as substâncias em que se encontravam.


Apresentavam de forma pedagógica algumas considerações sobre a arte de formular, os doentes também podiam dispor das receitas. Estas últimas eram preparadas de acordo com as fórmulas de cada médico, segundo as necessidades específicas do paciente. Eram elaborados em porções, por cozimentos, colírios, pílulas emulsões, linimentos, cataplasmas. Apresentavam de forma pedagógica algumas considerações sobre a arte de formular.

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

A SAÚDE PÚBLICA NA SOCIEDADE DO RIO DE JANEIRO DE 1850



Negros praticando a arte de cura popular
Foto: Internet
A saúde no Brasil durante o século XIX é marcada pelas divergências de ideias que existiam entre as classes mais pobres e os médicos. Foi um século que teve muita influência do período colonial que era caracterizado pelas diferentes culturas dos europeus, indígenas e africanos, pois havia diferenças na forma de tratar as doenças pela medicina científica e as práticas tradicionais populares de cura, mas por conta da precariedade da medicina científica e o altos custos dos tratamentos, a população mais pobre acabava optando pelos recursos populares para a cura de seus males. Outra característica do século XVIII que se estendeu até o século XIX foi a influência que a natureza do Novo Mundo conquistado teve sobre o conhecimento científico português e com isso esse conhecimento acabou mesclando-se ao dos nativos e dos negros africanos.  

Já no período oitocentista as enfermidades surgidas estavam relacionadas com as políticas de dominação portuguesa, por isso os negros escravos, livres e libertos começaram a se tornar os principais alvos para justificar o surgimento das doenças e também eram considerados os causadores da desordem na sociedade, com isso o governo acabou tomando medidas de controle social e moradias. Os higienistas começaram a tentar vacinar à população contra as doenças, entretanto as pessoas tiveram uma resistência, o que acabou gerando a conhecida “Revolta da Vacina”.

Revolta da Vacina
Foto:Internet
Essa revolta se deu também, por conta do conceito sobrenatural de saúde e doença que começou existir, principalmente depois do aparecimento da febre amarela, entre a população, pois para essas pessoas a cura deveria ser provida somente através da evocação de São Benedito, porque era o santo que teria poder de curar ou evitar a moléstia causadas pelo vômito preto (nome pelo qual a febre amarela ficou conhecida entre os populares).  Assim, as pessoas o evocavam em rituais religiosos para anular feitiços de bruxarias, curar os doentes e resolver os conflitos que ocorria nas comunidades.  Os mais humildes começaram a associar a moléstia da febre amarela como sendo um castigo de Deus, devido aos pecados, relacionados aos vícios como, as festas, bailes durante o período em que as doenças assolavam a cidade do Rio de Janeiro.

Além dos libertos e livres, os escravos também associavam a doenças ao sobrenatural, como os feitiços que eram feitos por feiticeiros, que manipulavam o universo. Principalmente quando se tratava de mau-olhado que era considerado nocivo, especialmente para as crianças, pois despertava muitos problemas, como angústia podendo provocar a morte do inocente. Contra esse mal os remédios utilizados eram os amuletos e as benzenduras, logo essas enfermidades não poderiam ser tratadas por médicos. Além disso, de acordo com a crença dos negros, as doenças poderiam ser adquiridas devido aos erros cometidos em rituais religiosos ou também pelo descumprimento de deveres com os deuses e por isso, a cura, se dava através dos próprios rituais, onde invocavam seus antepassados pedindo auxílio das forças espirituais para a realização da cura. Essas questões sobre o conceito de saúde e doença que existia entre os populares do Rio de Janeiro, podem ser percebidas nos relatos do viajantes que passaram pela Corte.

Esses primeiros textos são um pouco sobre o contexto histórico social do Brasil no século XIX, pois com esse contexto vamos percebendo que esses ideais ainda se fazem presentes nos dias de hoje. O próximo texto falarei um pouco sobre os manuais de medicina populares do Dr. Chernoviz, criados para auxiliar as pessoas da época no tratamento das doenças com remédios a base de plantas medicinais.





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terça-feira, 17 de abril de 2018

CONHECENDO UM POUCO A HISTÓRIA DA SAÚDE


A História da Saúde é um campo muito interessante e que muitas pessoas talvez desconheçam. Eu mesmo quando iniciei na faculdade de História não imaginava que essa área pudesse ser um campo tão vasto e que nos proporciona uma gama de conhecimento sobre a formação social e os ideias disseminada dentre as pessoas.

É um campo que nos ajuda a perceber que muitos aspectos culturais de outras etnias estão presentes nos dias de hoje e acrescentaram para a formação cultural de nossa sociedade. Por conta disso, resolvi trazer uma série de textos baseados nas minhas pesquisas de monografia sobre o diálogo das tradições populares de cura e a medicina tradicional, o conceito de saúde e doença e as tradições de uso das plantas medicinais que são ideias presentes até os dias de hoje e isso será percebido nos discursos de pessoas que pude ter contanto quando estive como bolsista de uma pesquisa sobre as tradições de uso das plantas medicinais no município de Petrópolis pela FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz).

Dentro destes textos, pretendo trazer um pouco visões de autores que debruçaram suas pesquisas a entender aspectos que faziam com que a população desenvolvesse uma resistência pelos tratamentos disponibilizados pelos médicos, fator que acabou gerando a conhecida "Revolta da Vacina".  As práticas de cura desenvolvidas pelas pessoas, pois mesmo que existem médicos na Corte Imperial, ainda sim eram  insuficientes. Quero trazer também questões relacionadas as tradições africanas de crença que influenciaram muito no Brasil, mas não entrarei em aspectos religiosos, mas nesses textos focarei mais nas superstições e "crendices" que tinham. Além disso, quero falar um pouco sobre como a medicina tradicional se utilizou desses conhecimentos populares para criação de manuais e dicionários que traziam conteúdos de remédios a base de plantas, o que ajudou muito aos profissionais da área da saúde e até mesmo à população em seus tratamentos.

Com a pesquisa da FIOCRUZ, gostaria de tentar mostrar através do discurso das pessoas como essas tradições presentes no século XVIII e XIX  estão presentes nos dias de hoje. E com isso demonstrar que a História não é um campo que só estuda o passado, mas demonstra que o passado pode influenciar o presente através dos processos históricos.

Essas pesquisas foram muito enriquecedoras para mim e me ajudaram a entender como uma planta que para muitas pessoas podem ser apenas uma planta, mas para outras tem um poder de cura e são sagradas. Me fez olhar a natureza com outros olhos e a respeitá-la como uma grande fonte de cura para males. E gostaria muito de compartilhar esses conhecimentos com todos aqueles que curtem o blog e com aqueles que poderão vir a curtir.

No primeiro texto, falarei um pouco sobre o contexto histórico da saúde e doença no Brasil do século XIX e as questões que levaram a "Revolta da  vacina". Além de falar dos manuais de medicina popular trazidos pelos Dr. Chernoviz.
Espero que gostem!

segunda-feira, 2 de abril de 2018

PETRÓPOLIS E A MÚSICA



A música está presente constantemente em nossas vidas, seja para fazer uma caminhada, malhar, dançar, relaxar, festejar, entre outros aspectos. Além disso, ela traz em sim uma importante fonte tanto para educação como marcar cultural de um povo.
Por conta desses aspectos, resolvemos falar um pouco da música na cidade de Petrópolis. Toda a influência europeia que recebeu pela vinda dos colonos.
D. Pedro I  também era músico
Foto: Internet

Vamos então, iniciar traçando um pouco da História da música no Brasil, fazendo um link com o ano de fundação da cidade de Petrópolis em 1843, que foi o período no país, ainda Império, conhecido nas artes como Romantismo Brasileiro. Quando houve a estabilização política, pode-se também intensificar a vida cultural. A música erudita brasileira deste período foi influenciada pelo Romantismo europeu, através de artistas como: pintores, escritores, dramaturgos e os músicos.

A música teve um forte marco na educação da família real, seja na apreciação de D. João VI ou nas composições de D. Pedro I, tais como: uma Abertura, um Credo, o Hino da Carta, o Hino da Independência e o Hino da Maçonaria do Brasil. Seus instrumentos principais eram a clarineta, o fagote e o violoncelo, o que nos leva a imaginar as belas paisagens da Fazenda do Padre Correa inspirando-o a tocar belas sinfonias. Já Pedro II teve uma proveitosa atividade inclusive na educação musical desde que tomou posse como Imperador em 1841.


Música em Petrópolis:

Na cidade de Petrópolis a educação musical começou a fazer parte da vida das pessoas com a chegada das 600 famílias de colonos alemães no ano de 1845.
Vale ressaltar que Petrópolis tem na música uma de suas manifestações artísticas e culturais mais expressiva desde o século XIX. No início as bandas alemães, os coros nas igrejas, o cantar despreocupado da população e conjuntos musicais vindo de todo o Brasil. Propondo-nos imaginar as melodias cantadas pelos colonos ao longo dos trabalhos nas hortas e pomares dos diversos quarteirões.

As festas eram um costume muito comum entre os alemães, há relatos de haver em todas elas um sanfoneiro que tocava vários tipos de músicas nesses eventos, tais como: Polka, Mazurcas, Valsas e algumas músicas de motivos germânicos. Além das cantigas da época de seus locais de origem.

Escola de Música Santa Cecília
Foto: Internet
O primeiro músico que veio a aparecer na colônia de Petrópolis foi o senhor Gustavo Eckardt, natural de Hesse (um Estado da região central da Alemanha), que era um competente afinador de pianos. Organizou um conjunto musical que mais tarde transformou-se em uma banda. Após sua saída , assume o regente José Schaefer e banda denominou-se “Banda Schaefer”.
No ano de 1847 no governo sob o comando do Dr. José Maria da Silva Paranhos, que vinha a ser o futuro Visconde do Rio Branco, assinou uma lei que determinava a criação de uma escola de música na qual, se ensinasse de forma gratuita os meninos colonos e aos brasileiros, a prática dos instrumentos e o cantar.
Na cidade a primeira escola de música que veio a surgir foi a Escola de Música Santa Cecília, fundada pelo Maestro Paulo Carneiro em 1893 (de onde alguns alunos se destacaram pela execução das obras de Mozart).

Orquestra Anima e Coure- Concha acústica Museu Imperia
Foto: Vicktor Correa
Hoje Petrópolis conta com alguns cursos e professores particulares de música, escolas de Música tais como: Escola de Música do Santa Cecília, Escola de Música da UCP, a Escola de Música Fábrika de Sons e o Centro de Artes Suzuki. As orquestras: Orquestra de Câmara da UCP, Conjunto Anima
e Cuore, Orquestra do Palácio Itaboraí (FIOCRUZ de Petrópolis) e Orquestra do Centro de Artes Suzuki. Diversos corais como: Cant Vox, Coral Laos Deo, Princesas de Petrópolis  entre  muitos outros, ao ponto de termos periodicamente os concertos “Coral das Mil Vozes” aonde se reúnem muitos coros da cidade num belíssimo concerto.
Orquestra Petrobrás - Teatro D. Pedro
Foto: Vicktor Correa
Ocorre na cidade muitos eventos relacionados à música: apresentação dos corais na Igrejas, Concertos do Órgão da Catedral, Concertos na Sala da Batalha e na Concha Acústica no Museu Imperial, Feira Deguste (feira de cervejas artesanais que apresenta as bandas locais) e Solstício do Som (festival para bandas independentes). Há também os eventos que são um marco cultural na cidade como a Bauernfest, festa do colono alemão que traz tradições típicas da cultura germânica, comida, bebida e, claro a dança e a música, a Serra Serata (festa da Itália), que assim como a Bauernfest, traz também cultura tradicional dos colonos italianos e o Bunka Sai, festival dos colonos japoneses.


Serra Serata: Grupo de dança Rheinland Pfalz

Canto Gregoriano - Catedral
Foto: Vicktor Correa 
Bauernfest - Grupo Rheinland Pfalz
Foto: Vicktor Correa