
A
ideia do governo de tentar legalizar as práticas populares estava sob uma ótica
de diminuí-las, mas essa tentativa não foi eficaz e logo os curandeiros
poderiam realizar seus trabalhos com objetivo de adquirir o reconhecimento de
arte de cura oficial. Nos períodos de 1808 a 1855 houve uma legalização das
práticas de cura que se preocupou em distinguir os profissionais, reconhecendo
alguns saberes e excluindo outros.
A
Fisicatura-mor era uma das instituições que cuidavam da legalização das
práticas populares de cura. Essa legalização acontecia através de cartas de
referências que as instituições concediam aos terapeutas populares, onde
demonstrava o aprendizado de ofício ou de conhecimentos empíricos e assim
permitiam que os barbeiros-sangradores, cirurgiões-barbeiros, boticários,
parteiras, dentistas práticos e curandeiros ingressarem no mundo das práticas
oficiais de curar. Nesse mesmo período de atuação da Fisicatura-mor ocorreu um
processo legal que foi lentamente elaborando campos diferentes de atuação, em
termos oficiais, para os diversos tipos de curadores.
Em 1832 os regulamentos que substituíram a
legislação da Fisicatura-mor, alteraram a legalidade dos ofícios dos
praticantes da cura popular, pois foi a partir desse período, os únicos que
continuaram sendo reconhecidos como ofícios legais foram os médicos, os
cirurgiões, os boticários e as parteiras, que somente poderiam atuar dentro das
indicações e das determinações dos praticantes da medicina oficial.
Durante o período imperial do Brasil
existiam diversidades e hierarquias entre os curadores e entre a dinâmica que
estes tinham em prol das pessoas. Um fator que levou a hierarquização entre
esses terapeutas, foi desvalorização dos trabalhos manuais que permaneceu
durante o século XIX. A relação entre o
sangue como sendo a parte “suja” do corpo, foi uma questão que inferiorizou as
atividades dos barbeiros e cirurgiões, enquanto os médicos valorizavam as artes
liberais, por estas possuírem pouco trabalho manual. O ofício de parteira era considerado uma arte
de curar, pois dentro da sociedade era necessário certo tipo de pudor para o
cuidado com a saúde das mulheres, logo homens não poderiam tratá-las. Mesmo as
mulheres pobres recebiam um cuidado especial com o seu corpo.
O uso das plantas medicinais também foi
uma forma predominante nos oitocentos do Brasil. Mas, ao tratar de plantas como
medicamentos é necessário se atentar às questões relacionadas às práticas
empíricas e do cotidiano das pessoas de forma coletivas, pois em um maior
contexto de uma determinada sociedade haverá outras tradições diferentes que
objetivam a cura da doença dos homens. A forma como ocorreu a difusão entre a
terapia popular e a medicina científica começou a partir da chegada dos
europeus na terra do “Novo Mundo”, onde as variedades dos tratamentos populares
encontrados na nova terra pelos europeus contribuíram para a medicina trazida
por eles. Assim como a medicina convencional europeia sofreu transformações, as
práticas de cura popular também sofreram, porque as receitas de uso das plantas
medicinais herdadas pelos populares desde Idade Média, foi paulatinamente
ganhando forma de remédios.
A
valorização no Brasil da medicina popular se deu, a partir de uma iniciativa de
unir as técnicas fitoterápicas da medicina tradicional e populares para
assistir aos problemas existentes de acesso a remédios pela população pobre,
isso ocorreu com a criação da Coordenação Nacional de Fitoterapia em Serviço
Público e projetos sobre as plantas medicinais.
No
século XIX muitos autores abordaram um estudo sobre as plantas com a finalidade
terapêutica, nesse período havia poucos médicos no Brasil Imperial, fator que tornava
os manuais de medicina popular principal instrumento que relacionava a medicina
convencional com a medicina científica. No Brasil Imperial, esses manuais de
cunho popular não eram escritos por uma oposição entre duas medicinais,
acadêmica e popular, mas pelas pessoas consumidoras desses manuais, entre eles
se encontravam os boticários, fazendeiro, mães de famílias, ou seja, pessoas
que eram leigas, mas que praticavam arte popular de cura, enfim, toda uma gama
de população. O século XIX marca a relação entre o saber da medicina científica
e da medicina popular, onde a ciência faz um aprimoramento do uso das plantas
medicinais pertencente ao universo da terapia popular.
Os
manuais criados de medicina popular e as farmacopéias[1]
sofreram modificações, ou seja, foram incorporadas na cultura científica, pois
foram classificadas e normalizadas para os consumidores de uma determinada rede
social, apesar de sempre nesses manuais haver suas matrizes originais da
cultura popular. Para obter uma melhor compreensão das práticas populares é
necessário apontar os elementos que estão inseridos na cultura popular, como
por exemplo, as práticas, os rituais, os conceitos de saúde e de doença, entre
outros e de que maneiras esses elementos estão relacionados com a medicina
tradicional.
[1] Fármacopeia brasileira é o
compêndio que define as especificidades para o controle de qualidade de
medicamentos e insumos para a saúde.


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