quinta-feira, 10 de maio de 2018

AS FRONTEIRAS ENTRE A MEDICINA POPULAR E A MEDICINA CIENTÍFICA: DISPERSÃO E UNIDADE




 Os manuais médicos do Dr. Chernoviz foi uma maneira da medicina científica ter uma conhecimento mais aprofundado sobre as práticas de cura, de disseminação do conhecimento popular e de auxiliar aos leigos que não tinham acesso aos médicos no tratamento mais emergenciais de maneira autônoma e no melhoramento das condições de vida através de uma conscientização de higiene. Mas, as fronteiras entre as terapias populares de cura e a medicina acadêmica existiram somente nos primeiros séculos do Brasil. Além disso, havia aspectos entre a medicina e a magia, que para muitas pessoas dos séculos XVIII ao XX, acreditavam ter relação entre ambas, o que fez com que tivessem sido influenciadas na escolha pela terapia popular, por acreditarem que a doença estava atrelada à magia.

A ideia do governo de tentar legalizar as práticas populares estava sob uma ótica de diminuí-las, mas essa tentativa não foi eficaz e logo os curandeiros poderiam realizar seus trabalhos com objetivo de adquirir o reconhecimento de arte de cura oficial. Nos períodos de 1808 a 1855 houve uma legalização das práticas de cura que se preocupou em distinguir os profissionais, reconhecendo alguns saberes e excluindo outros.

A Fisicatura-mor era uma das instituições que cuidavam da legalização das práticas populares de cura. Essa legalização acontecia através de cartas de referências que as instituições concediam aos terapeutas populares, onde demonstrava o aprendizado de ofício ou de conhecimentos empíricos e assim permitiam que os barbeiros-sangradores, cirurgiões-barbeiros, boticários, parteiras, dentistas práticos e curandeiros ingressarem no mundo das práticas oficiais de curar. Nesse mesmo período de atuação da Fisicatura-mor ocorreu um processo legal que foi lentamente elaborando campos diferentes de atuação, em termos oficiais, para os diversos tipos de curadores.

Em 1832 os regulamentos que substituíram a legislação da Fisicatura-mor, alteraram a legalidade dos ofícios dos praticantes da cura popular, pois foi a partir desse período, os únicos que continuaram sendo reconhecidos como ofícios legais foram os médicos, os cirurgiões, os boticários e as parteiras, que somente poderiam atuar dentro das indicações e das determinações dos praticantes da medicina oficial.

Durante o período imperial do Brasil existiam diversidades e hierarquias entre os curadores e entre a dinâmica que estes tinham em prol das pessoas. Um fator que levou a hierarquização entre esses terapeutas, foi desvalorização dos trabalhos manuais que permaneceu durante o século XIX.  A relação entre o sangue como sendo a parte “suja” do corpo, foi uma questão que inferiorizou as atividades dos barbeiros e cirurgiões, enquanto os médicos valorizavam as artes liberais, por estas possuírem pouco trabalho manual.  O ofício de parteira era considerado uma arte de curar, pois dentro da sociedade era necessário certo tipo de pudor para o cuidado com a saúde das mulheres, logo homens não poderiam tratá-las. Mesmo as mulheres pobres recebiam um cuidado especial com o seu corpo.
O uso das plantas medicinais também foi uma forma predominante nos oitocentos do Brasil. Mas, ao tratar de plantas como medicamentos é necessário se atentar às questões relacionadas às práticas empíricas e do cotidiano das pessoas de forma coletivas, pois em um maior contexto de uma determinada sociedade haverá outras tradições diferentes que objetivam a cura da doença dos homens. A forma como ocorreu a difusão entre a terapia popular e a medicina científica começou a partir da chegada dos europeus na terra do “Novo Mundo”, onde as variedades dos tratamentos populares encontrados na nova terra pelos europeus contribuíram para a medicina trazida por eles. Assim como a medicina convencional europeia sofreu transformações, as práticas de cura popular também sofreram, porque as receitas de uso das plantas medicinais herdadas pelos populares desde Idade Média, foi paulatinamente ganhando forma de remédios.

A valorização no Brasil da medicina popular se deu, a partir de uma iniciativa de unir as técnicas fitoterápicas da medicina tradicional e populares para assistir aos problemas existentes de acesso a remédios pela população pobre, isso ocorreu com a criação da Coordenação Nacional de Fitoterapia em Serviço Público e projetos sobre as plantas medicinais.  

No século XIX muitos autores abordaram um estudo sobre as plantas com a finalidade terapêutica, nesse período havia poucos médicos no Brasil Imperial, fator que tornava os manuais de medicina popular principal instrumento que relacionava a medicina convencional com a medicina científica. No Brasil Imperial, esses manuais de cunho popular não eram escritos por uma oposição entre duas medicinais, acadêmica e popular, mas pelas pessoas consumidoras desses manuais, entre eles se encontravam os boticários, fazendeiro, mães de famílias, ou seja, pessoas que eram leigas, mas que praticavam arte popular de cura, enfim, toda uma gama de população. O século XIX marca a relação entre o saber da medicina científica e da medicina popular, onde a ciência faz um aprimoramento do uso das plantas medicinais pertencente ao universo da terapia popular.

Os manuais criados de medicina popular e as farmacopéias[1] sofreram modificações, ou seja, foram incorporadas na cultura científica, pois foram classificadas e normalizadas para os consumidores de uma determinada rede social, apesar de sempre nesses manuais haver suas matrizes originais da cultura popular. Para obter uma melhor compreensão das práticas populares é necessário apontar os elementos que estão inseridos na cultura popular, como por exemplo, as práticas, os rituais, os conceitos de saúde e de doença, entre outros e de que maneiras esses elementos estão relacionados com a medicina tradicional.



[1] Fármacopeia brasileira é o compêndio que define as especificidades para o controle de qualidade de medicamentos e insumos para a saúde.

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